O traduzir ao longo da história

Acho interessantes as dicotomias que acompanharam a conceituação da tradução ao longo do tempo e como elas se alternam quase que ciclicamente. A foto aí ao lado é uma homenagem ao nosso padroeiro São Jerônimo – tão invocado nas horas de desespero em busca da melhor tradução! Vou postar aqui as considerações feitas hoje na aula da turma de Introdução aos Estudos da Tradução na UFSC.

Apresentamos os primeiros registros datando de 300 a.C. com as traduções para o aramaico dos Escritos Sagrados e do Cânone Judaico, passando pela tradução da Ilíada, de Homero, que marca a história da tradução no ocidente. Neste momento, o ideal tradutório é a fidelidade ao texto original.

No período romano, rompe-se com a questão da fidelidade, dando-se preferência a um texto mais fluido, mais criativo. Nessa época, a tradução é vista como um exercício de enriquecimento da língua.

Na Idade Média o ideal tradutório volta-se novamente para a literalidade. Note-se que nesta época fervilha a grande produção de traduções feitas pelos monges cristãos: quase 90% de e para as línguas ocidentais na Europa. São Jerônimo, ao contrário do conceito tradutório no momento, defendia uma tradução mais sentido-por-sentido. Para ele, o papel do tradutor era de interpretar e complementar com outras informações. Por isso ele é até hoje contestado, suas traduções ainda são estudadas, analisadas, criticadas, contempladas, etc.

No Renascimento, a tradução é relevada ao status de obra literária. Os tradutores são então vistos como autores do texto por serem capazes de reproduzir os valores artísticos do texto-fonte, adaptando-os.

No século XVI, tradutores como Juan Luis Vives, Martinho Lutero e Etienne Dollet saem das dicotomias FORMA X CONTEÚDO, LITERAL X LIVRE para iniciarem discussões sobre, respectivamente, a expressão e o sentido, a tradução com valor comunicativo, e  o conhecimento do assunto antes do conhecimento da língua.

A partir daí, outros teóricos começam a categorizar os processos tradutórios seguindo, no fundo, a mesma linha de pensamento: fidelidade ao original, liberdade de criação, consideração cultural, etc. E até hoje o que vamos fazendo é construir camadas sobre o alicerce posto por aqueles primeiros pensadores de tradução.

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1 comentário

Arquivado em Teoria de tradução

Uma resposta para “O traduzir ao longo da história

  1. Muito interessante amiga Michele, conhecer a dinamicidade do conceito de tradução no decorrer da história. A história é sempre um ótimo começo para se compreender os porquês de tantas divergências no presente, já que ainda hoje discutimos vários dos mesmos conceitos já debatidos há séculos, como a co-autoria ou não do tradutor. As informações são novas para mim, e muito bem vindas, continue postando!

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