Estrangeirização, domesticação…

Quando fazemos alguém pensar sobre a tradução pela primeira vez, geralmente o que obtemos pode ser classificado como: tradução boa é aquela que me leva até a cultura do autor (estrangeirização); ruim é aquela que “adapta” tudo (domesticação). Não culpemos os leigos: este tipo de pensamento está arraigado, vem de uma tradição de gerações e gerações de tradutores e consumidores de tradução. O problema é pensar que só existem estes dois ‘procedimentos’, pois, além de limitante, é um conceito empobrecedor para o processo tradutório.

Fonte: FotolivreUFSC. Autora: Ana Paula Ferreira Mendes

Na tradução estão envolvidos diversos fatores: o propósito do iniciador da tradução (aquele que a encomenda, que inicia todo o processo), a função do texto-fonte em seu contexto de recepção, a função a ser atribuída ao texto-alvo (que pode diferir da função do texto-fonte), os marcadores culturais presentes do texto, as implicações de gênero textual, o meio em que o texto será publicado, as pressuposições presentes no texto, etc. Ao lidar com todas estas variáveis, o tradutor passa a ser um negociador, e deve ter senso diplomático para que alcance um resultado competente.

Ao receber um texto a ser traduzido não basta, portanto, decidir estrangeirizar tudo ou domesticar tudo. Se a tradução for baseada somente nisto, perdem-se muitos elementos que requerem uma análise mais minuciosa no julgamento daquilo que vai para a tradução e daquilo que é descartado, modificado, parafraseado, etc. Os procedimentos, eu diria, vão depender fundamentalmente da função atribuída ao texto traduzido. Se um trecho do livro “Dom Quixote” a ser traduzido será publicado em um livro didático para crianças do ensino fundamental, deve-se traduzir com vistas ao público que vai recebê-lo: que informações tais crianças possivelmente sabem sobre a obra? Que elementos do texto original não fazem parte do universo cultural dessas crianças? Seria interessante mantê-los, explicá-los, modificá-los, retirá-los? A intenção é mostrar o universo cultural do livro, da época e do local em que foi escrito, ou mostrar o conceito sobre a amizade entre Dom Quixote e Sancho Pança?

Quando enriquecemos a discussão sobre o fazer tradutório, temos mais tradutores competentes a entrar no mercado de trabalho e oferecendo mão-de-obra qualificada. Pensante.

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1 comentário

Arquivado em Teoria de tradução

Uma resposta para “Estrangeirização, domesticação…

  1. Renilse

    Olá Michelle!!
    Sou professora de Espanhol e faço doutorado em traduçao na Universidade de Salamanca, meu trabalho está inserido na linha de pesquisa Traduçao como mediaçao cultural…espero que possamos trocar muitas figurinhas.

    Um abraço!!

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