Quando o cinema sem querer (querendo) traduz a sociedade

Que título sublime para um post. Há algum tempo estou ensaiando para escrever isto, e espero que hoje saia da minha cuca e vá parar na retina de vocês. No último dia 27 viajei para o interior de SP para passar o aniversário da minha mãe. Toda vez que planejo uma viagem para lá cogito a possibilidade de ir de avião – mas só de pensar que tenho que voar até São Paulo, depois voar até Campinas e, de lá, tomar um ônibus que me leve a São José do Rio Preto para, então, entrar no carro dos meus pais e ir para Urupês… bah, já me dá preguiça. Por isso compro minha passagem na Itapemirim, coloco meu cobertor de viagem embaixo do braço e encaro cerca de 18 horas sentada no banco de um ônibus a curtir a incrível mudança na vegetação desde o sul até o sudeste desse Brasilzão.

Em uma viagem tão longa opções não faltam para distração. 1ª: livros. Li um livro inteiro do Mario Prata só na ida. 2ª: música. No meu caso, ouço as gravações de um programa matinal da Rádio Comercial, em Portugal, chamado Caderneta de Cromos. É capaz de me levar às gargalhadas. 3º: olhar a paisagem. É a opção que leva ao cochilo quase imediato. E 4ª: curtir os filmes escolhidos pelo motorista para entreter os passageiros. De tanto fazer essas viagens eu já sei o gosto de cada motorista (são 3, no total, pois trocam a cada 6 horas). Alguns decidem não colocar filme algum – e muitas vezes considero a melhor opção, tendo em vista o menu oferecido pelo motorista que conduziu a maior parte da minha última viagem…

Menu: toda a filmografia de Jackie Chan. Eu podia parar este post por aqui, mas preciso considerar algumas coisas interessantes (se é que existem) nas atuações chinesas/coreanas/japonesas.

O filme que mais me chamou a atenção é aquele – quem vê Sessão da Tarde deve conhecer – em que Jackie Chan e sua equipe de amigos resgatam um bebê das garras de não sei de quem. Eu não entendi a história, porque assistir ao filme e descer a serra de Curitiba é nauseante, no mínimo. Mas existe algumas peculiaridades na atuação do pessoal da China (de onde penso que veio a maior parte do elenco). Dá a impressão de estarmos assistindo a um desenho animado, com atuações caricatas, muitas vezes exageradas, em um ritmo acelerado e robotizado. O ápice, no entanto, está em uma cena, lá para o final do filme, em que o bebê (não sei por que razão, não acompanhei a saga chaniana) parece estar morto. É o momento trágico em que Jackie Chan chora copiosamente enquanto faz massagem cardíaca e respiração boca-a-boca com a criança. Essa cena é exibida em câmera lenta (conseguem imaginar os movimentos lentos de Jackie Chan gritando desesperado enquanto chora a morte do bebê? Pois é. Não dá para não imaginar). As pessoas em volta de Jackie também choram muito, e nesse ínterim quase eu chorei também. É drama para fazer chorar as pedras da calçada.

O que quero contar aqui é como me chamou a atenção o tipo de tragédia do filme. Poxa vida, matar um bebê (que depois volta à vida, pelo pouco que vi) é dos apelos mais marcantes em que podiam pensar os produtores e roteiristas da película. Acredito que uma história dessas contada no cinema brasileiro, a meu ver, seria considerada até de mal gosto. Se isso sensibiliza a plateia chinesa de modo positivo, chega a aterrorizar plateias como eu. É a boa e velha adequação ao público receptor da mensagem. Nós nos emocionamos com o menino órfão e pobre de Central do Brasil, enquanto a China debulha suas lágrimas a bebês desacordados nos braços de seu maior ídolo. Acho divertidas essas diferenças, e gosto de assistir filmes fora do circuito holliwoodiano. Vi uma vez um filme iraniano que, bah, merece um post também.

Embora não seja lá tão admiradora do Jackie Chan e seus filmes, acho riquíssimo quando o cinema se propõe a retratar o modo como uma sociedade recorta sua realidade. Penso que esse é o tipo de cinema legítimo, embora não se vejam produções assim com tanta frequência. Cansei de ver os blockbusters norte-americanos que, não sejamos ingênuos, não são mais que entretenimentos de parques de diversões (e nisso eles também são especialistas!) confinados a uma tela gigante. No fundo até prefiro bebês chineses sendo ressuscitados por Jackie Chan do que criaturas azuis e gigantes vistas em 3D.

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Arquivado em Humor tradutológico, Prática de tradução

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